ESTUDOS: Professor quer continuar na sala de aula e idealiza outro tipo de escola

Mesmo com um período desafiante, os professores mantém disposição de seguir se dedicando à profissão. FOTO: Reprodução.

MANAUS – |Mesmo com os desafios impostos pela pandemia de Covid-19, desde o primeiro trimestre de 2020, 83% dos professores mantém a educação como papel central de suas vidas enquanto que para 97% deles, a escola ideal está longe do que se pratica hoje, seria diferente e inovadora. Esse é o resultado de dois estudos realizados pelo Núcleo de Novas Arquiteturas Pedagógicas da Universidade São Paulo (NAP/USP) em parceria com o Insitituto iungo, organização fundada pelo Instituto MRV: “Desejos e Projetos de vida docentes” e “A escola pública dos sonhos para os educadores brasileiros”.

De acordo com o primeiro estudo realizado com 2 mil docentes, 83% indicaram que a Educação ocupa papel central em seus projetos de vida e que pretendem seguir atuando na educação pública. Os dados surpreendem, principalmente, porque as pesquisas foram feitas em 2021 – cenário ainda de suspensão das aulas presenciais devido à pandemia da Covid-19, que causou grande impacto no cotidiano dos professores, com maior estresse e pressão para que reinventassem sua forma de trabalho em um curto espaço de tempo.

Um dos professores demonstra esse compromisso, quando responde sobre seus projetos de vida: “Quero passar em um concurso público, e com isso poder atuar por mais tempo em uma escola, para realizar alguns projetos. Quero passar em um concurso público para ter estabilidade e mais liberdade de ação com meus alunos. Quero fazer um mestrado em educação especial, gosto muito de trabalhar com esse público”.

Já este depoimento coletado da pesquisa, exemplifica essa busca pela qualidade: “Já com 28 anos de magistério, ainda tenho muito fôlego e desejo contribuir mais. Tenho planos de criar um espaço mais envolvente para o ensino de ciências, um clube de ciências no contraturno, um espaço da robótica. Ano passado criamos um grupo de estudo com professores e desejamos retomar os estudos e trocas de experiências”.

A identidade dos professores foi preservada para manter o sigilo no resultado da pesquisa.

Os resultados do segundo estudo, “A escola pública dos sonhos para os educadores brasileiros”, que ouviu 1500 professores, mostraram, também, que para 97% dos professores a escola ideal seria diferente da atual e mais inovadora: com metodologias ativas (que focam no protagonismo dos estudantes em seu processo de aprendizagem), melhor infraestrutura, relações mais democráticas e um currículo mais flexível e conectado à formação cidadã.

A resposta de um dos participantes da pesquisa reflete de forma bastante concreta o desejo de uma escola mais instigante: “Para reinventar as práticas escolares e minha aula, começaria com a parte física das salas: mais amplas, com acesso à internet. Neste espaço, haveria mais espaços para os alunos trabalharem em grupo, telas, obras de arte, mapas, estantes com livros. Com esse ambiente físico, poderia propor aulas mais dinâmicas. Os alunos trabalhariam mais em dupla ou grupos, pesquisariam através dos sites, livros. Outra coisa bacana é desenvolver parcerias com outros colegas professores. Dependendo do tema, poderíamos trabalhar no mesmo espaço. O aluno seria menos passivo”.

Segundo Paulo Andrade, diretor do Instituto iungo, embora possa parecer contraditório, o desejo de ter uma escola diferente é um sintoma positivo e esperado daqueles que têm a Educação como um aspecto central de seu projeto de vida. “Ter um projeto de vida é o que nos move a olhar criticamente para o nosso entorno, desejar e buscar ferramentas para tornar o nosso sonho, o mais real possível. O estudo nos mostra que, apesar dos conhecidos desafios da docência, agravados pela pandemia, os professores acreditam no poder transformador da Educação e têm ideias muito concretas sobre como melhorar a escola pública. Ouví-los, é também essencial para a construção de políticas de desenvolvimento profissional docente significativas e efetivas”, afirma Andrade.

As duas pesquisas foram realizadas com professores de todas as regiões do Brasil, por meio de questionários abertos, com respostas espontâneas e dissertativas. Ambas as análises ponderaram o número de participantes por região de forma que ficasse proporcional à distribuição geográfica dos professores de educação pública no país, segundo os dados do Censo Escolar 2018.

Valéria Arantes, coordenadora da pesquisa “Desejos e Projetos de Vida docentes”, é professora Livre-Docente da Faculdade de Educação da USP e diretora do NAP/USP. A segunda pesquisa, sobre a escola dos sonhos dos professores, foi coordenada por Ulisses Araújo, professor titular sênior da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e coordenador Científico do NAP-USP.

Escola amazonense que vivencia na prática os resultados da pesquisa

A Escola Estadual Professora Mirtes Rosa Mendes de Mendonça Lima, em Itacoatiara, desenvolve um trabalho de gestão democrática e formação docente entre os próprios professores da escola, se apropriando das novidades propostas para o Ensino Médio.

As professoras Delma Coelho e Heldenora Moreira, junto com a gestora Fernanda Rodrigues de Oliveira, participaram da Residência iungo, em 2021. O projeto desenvolvido por eles na residência partiu da escuta ativa da comunidade escolar e se inspirou em uma prática indígena. “Os indígenas trabalham colaborativamente em mutirões de um dia a que dão o nome de Puxirum. Então resolvemos trabalhar o novo Ensino Médio através de uma cartografia de metodologias ativas no projeto ‘Puxirum de Aprendizagem’. Trabalhamos temas como projetos de vida, sócio interacionismo, metodologia baseada em projetos”, explica Fernanda.

A partir do Pixurum, foram sendo aprofundadas várias práticas pedagógicas que haviam sido compartilhadas. “Por exemplo, trabalhamos o nosso projeto de vida como professores e ao compartilhar os nossos sonhos com os alunos, nos aproximamos deles. Foi um estímulo para que eles produzissem os projetos de vida e apresentassem aos colegas. Eles tinham vergonha de apresentar e essa atividade abriu um espaço pra gente se aproximar da realidade deles, das dificuldades que eles enfrentam, inclusive aquelas que os levam a abandonar a escola”, exemplifica Delma.

Para além do resultado na escola, a metodologia da residência foi divulgada por meio do centro de mídias da rede estadual amazonense. “Outras escolas entenderam que nossa formação foi toda feita com os recursos e pessoas da nossa escola. Eles se inspiraram a usar seus talentos para a formação no ambiente escolar”, finaliza Delma.

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