Vernissage expõe obras de artistas que se conectam pela diversidade

Obra “Benzimento” de Raiz Campos estará no Vernissage Diverso. Foto: Divulgação

MANAUS – | O Diverso, que se define pelo que não se assemelha, cria conexões quando a ancestralidade e a urbanidade das obras dos artistas coexistem e se completam, originando um emaranhado de formas, cores, estilos e tamanhos. Esse é o conceito do Vernissage Diverso, que acontece nesta sexta-feira (11), às 19h, no espaço de artes Casa Violeta (Rua Viena, 18 – Planalto), reunindo a arte contemporânea de Henrique Schmeil, Helerson da Maia, Turenko Beça e Raiz Campos.

O propósito do Vernissage Diverso é apresentar a simbiose entre expressões artísticas tão diferentes e tão semelhantes. Diferentes na forma, mas com inspirações, intenções e temáticas que convergem entre si. A Amazônia, ancestral e cosmopolita, por exemplo, é referência nas obras dos artistas. Nas fotografias de Schmeil, nos cocares de Helerson, no grafismo dos quadros de Turenko e nos grafittes gigantes de Raiz.

A Casa Violeta

Mas, além da genialidade dos artistas, o Vernissage vai surpreender pelo local da exposição, que já começa desconstruindo o modelo padrão de galeria. É uma casa, que lembra a da avó de tanto aconchego, cercada de plantas e objetos de arte por todos os lados.

O nome, Casa Violeta, é uma homenagem à nordestina de Jardim de Piranhas (RN), Maria Violeta Freire, que morou em Manaus por várias décadas, inclusive na casa que recebe seu nome. Violeta significa proteção, lealdade, modéstia e dá nome à flor de cor roxa.

“A casa, assim como a vida de Violeta, não teve projeto. Elas cresceram naturalmente. Mas, desde que os muros se ergueram, a casa virou um refúgio, um santuário. Paredes brancas são a lembrança do mundo imenso, infinito e criativo que existe dentro de cada um de nós”, descreve o fotógrafo Henrique Schmeil, um dos artistas do Vernissage Diverso, que reside atualmente na casa.

Curadoria e apoio

O Vernissage Diverso é uma realização da Casa Violeta, da Odisseia Galeria, de Curitiba (PR), que também faz a curadoria, e da Galeria Verão, com apoio local da loja Fast Frame.

A designer de interiores da galeria Odisseia, Thaís Domingues, explica que além de criar pontes para artistas amazonenses, dando visibilidade ao trabalho dentro e fora do Amazonas, a intenção, com a exposição, é também oferecer um espaço ou ambiente mais democrático para se ter contato com a arte.

“Nós queremos que as pessoas venham de chinelo, de bermuda e também de terno. A ideia é que elas acessem esse ambiente. Para isso, estamos tornando os espaços mais acessíveis. Que a arte possa ser acessada em qualquer lugar”, disse, destacando que os trabalhos da Odisseia, em Curitiba, têm seguido essa direção.

“Fizemos uma exposição numa casa underground, quebrando os padrões. E deu super certo”, concluiu a designer de interiores.

Sobre os artistas

HENRIQUE SCHIMEIL – Diversidades

Henrique Schmeil, desde o início de sua jornada fotográfica, sempre chamou a atenção para questões globais e sociais. Cidadão do mundo, ativista e de coração africano, como costuma dizer, viajou para a Índia, Bangladesh, Nepal, Vietnã e Tailândia para defender e lutar por meninas vítimas do tráfico sexual. Em outro momento, percorreu a Tanzânia, Etiópia, Angola, Marrocos, Quênia e Namíbia para ajudar na luta contra a mutilação genital feminina. Inquieto, hoje divide o coração entre o continente africano e o Amazonas.

Vivendo agora em Manaus, se dedica a causas locais, “defendendo os direitos humanos básicos de todos os irmãos e irmãs brasileiras, especialmente as comunidades indígenas da Amazônia que vivem em situação de abandono”, explica o fotógrafo.

Fotografia de Henrique Schmeil, que viajou por vários países.

Nas suas viagens ao redor do mundo, Henrique aprendeu que “a beleza da terra não está nas montanhas e vales, mas nas pessoas que vivem em sua sombra”.

O fotógrafo vai expor no Vernissage cerca de 50 fotografias, sendo 15 emolduradas, de tamanho médio, de um catálogo chamado Diversidades. Ele as denomina como cartões postais do mundo real. São fotografias de viagens a diversos países que trazem os contrastes do mundo real.

HELERSON DA MAIA – Arte plumária

Helerson da Maia nasceu e cresceu em Parintins (AM), berço do maior festival folclórico da América Latina. Daí sua veia artística de multifaces. É artista plástico, figurinista e designer de joias. Sua carreira artística internacional, com destaque para editoriais de moda em Londres e Liverpool, na Inglaterra; Firenze, Bergamo e Veneza, na Itália, lhe renderam larga visão de mundo e autoconhecimento.

Mas, sua escola de artes sempre foi Parintins. Desde cedo integrou os grupos profissionais que produzem os espetáculos dos bois-bumbás, Garantido e Caprichoso, dando visibilidade à sua arte e sendo convidado a atuar em outros festivais como nas Cirandas de Manacapuru (AM), nas escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro e na Cerimônia de Abertura das Olimpíadas de 2016, no Rio.

Obras do artista parintinense Helerson da Maia. Foto: Divulgação

Inspirados nas tribos indígenas da etnia Caiapós, apresentadas durante o Festival de Parintins, Maia vai expor 10 cocares emoldurados em painéis brancos contrastando com o colorido das penas. Os cocares são produzidos de forma artesanal, com penas de aves de abate e algumas sintéticas, imitando penas de animais silvestres. Utiliza também cipó, palha, algodão, pedras, cortes de acrílico e madeira. “Não é um cocar da aldeia indígena. É um cocar semelhante aos das tribos do Festival de Parintins. E embora a gente utilize produtos sintéticos, buscamos originalidade, inclusive utilizando a paleta de cores dos Caiapós”, explica o artista.

TURENKO BEÇA – Ancestral e contemporâneo

Turenko Beça, natural de Manaus, completou 30 anos de carreira artística no ano passado. Artista plástico, grafiteiro, escultor e desenhista, além de professor universitário, nasceu respirando cultura. Filho do poeta, escritor e um dos fundadores do Clube da Madrugada, Aníbal Bessa, Turenko começou a pintar aos 12 anos, mas somente em 1990 teve sua primeira exposição coletiva.

A partir de 1992, Turenko passou a fazer pesquisa antropológica sobre sociedades indígenas, tema que desde então dedica à sua arte. Tem obras expostas na Pinacoteca do Estado e Município, Museu da Amazônia (Musa), Museu Xumucuís, no Pará, além de importante acervo particular. Foi diretor dos museus e galerias de artes do Estado e assessor de Economia Criativa na SEC-AM.

Obras de Turenko Beça. Foto: Divulgação

No Vernissage Diverso Turenko Beça vai expor 10 telas, em sua maioria produzidas em 2022, acrílica sobre tela e no tamanho de 50x60cm. “As obras tratam da minha temática habitual que diz respeito à Amazônia. Ancestralidade e contemporaneidade, questões de deslocamentos, território podem ser percebidas”, explica, dando ênfase à menção ao amazônida que vive sempre entre o mito e o real, à sabedoria cabocla, aos conhecimentos dos povos originários. “E faço também referência à Manaus e à gente-peixe do rio Tiquié. Eu acho que todos somos gente-peixe”, conceitua.

RAIZ CAMPOS – Respeito aos povos nativos

Quem nunca se deparou com uma pintura gigante em grafitti nos viadutos e prédios de Manaus? São obras de Rai Campos, conhecido como Raiz, uma das maiores expressões do grafitti na região Norte. Nascido na Bahia, mas criado no Amazonas, cresceu na Vila do Pitinga, dentro da área indígena Waimiri Atroari. Começou a grafitar aos 14 anos.

Suas peças retratam a fauna, a flora e os povos nativos da Amazônia, tracejados com cores e técnicas mistas em muros, palafitas, casas flutuantes, viadutos de cidades da região e de capitais do país, juntando o ancestral e o moderno, num mesmo movimento

“A minha maior marca está em retratar personagens indígenas em suas atividades habituais, como forma de reconhecimento e respeito aos povos nativos amazônicos.

Além da trajetória local, o artista participou de festivais nacionais e internacionais, levando sua arte para outros estados brasileiros e países como Uruguai, Estados Unidos e Alemanha. Sua primeira exposição solo foi realizada em 2019 na Galeria do Largo, onde realizou o trabalho de grafite com grafismo indígena em esteiras indígenas

Rai Campos, conhecido como Raiz, é uma das maiores expressões do grafitti na região Norte. Foto: Divulgação

No mesmo ano recebeu o prêmio nacional da Fundação Bunge na categoria Arte Visual de Rua – Juventude, em São Paulo, e fora do país recebeu reconhecimento do Humboldt Fórum, centro de exposições da Alemanha, por seu trabalho de projeções de ciclos anuais com indígenas de São Gabriel da Cachoeira.

No Vernissage vai apresentar três painéis medindo 209×205 cm, utilizando técnica de grafitti com spray, executada em esteira indígena de fibra natural, confeccionada por artesão indígena da região do Alto Rio Negro. Os painéis retratam a série Grande Cobra Canoa, Benzimento e Agricultora.

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