Estudos com voluntários que receberam a vacina anti-HIV serão concluídos em 2023

A médica e pesquisadora Arlene Pinto (ao centro) e as enfermeiras do Instituto Carlos Borborema lidam diretamente com os pacientes do estudo. Foto: Divulgação

Vanessa Bayma

vanessabayma@canaltres.com.br

MANAUS – AM | Manaus é uma das cidades brasileiras que fazem parte do estudo global Mosaico, pesquisa da fase 3 da vacina anti-HIV, financiada pela empresa farmacêutica Janssen Vaccines & Prevention B.V. Coordenada pela Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), a pesquisa envolveu 101 voluntários em Manaus, que já receberam o imunizante e são monitorados. A conclusão dos estudos deve ocorrer somente em 2023.

O estudo Mosaico é realizado em todo o mundo com 3,8 mil participantes, com 18 a 60 anos de idade, pessoas que não possuem HIV e não façam o uso da profilaxia pré-exposição (PrEP). Em Manaus, a pesquisa foi iniciada no dia 1º de dezembro de 2020, Dia Mundial de Luta Contra a Aids. A escolha da cidade para compor os estudos deve-se aos altos índices de infecção por HIV.

Os 101 participantes são acompanhados por médicos da FMT-HVD, através do Instituto de Pesquisa Clínica Carlos Borborema (IPCCB). A coordenação é do pesquisador da Fiocruz e médico da FMT, Marcus Lacerda, em conjunto com as médicas e pesquisadoras Arlene Pinto e Camila Botto, doutoras em Medicina Tropical.

Além de Manaus, outros oito centros de estudos no Brasil fazem parte do Mosaico, além de 24 nos Estados Unidos, cinco no Peru, quatro na Argentina e três no México. Os centros europeus são seis na Espanha e três, cada um, na Itália e Polônia.

De acordo com a médica e pesquisadora do IPCCB, Arlene Pinto, este já é considerado o mais avançado ensaio clínico produzido como método preventivo ao HIV e usado em humanos. Apesar de não ser considerada “a cura” para o vírus, o objetivo do estudo é detectar menos ocorrência de infecções, em conjunto com outros métodos preventivos já existentes, como preservativo e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP).

A pesquisa investiga, também, a segurança do imunizante nos participantes, os possíveis efeitos colaterais, a geração de uma resposta imunológica adequada e a capacidade da vacina em prevenir a infecção pelo HIV. “Ainda estamos na fase da pesquisa e não temos o resultado final da eficácia da vacina”, explicou.

Em Manaus, os 101 pacientes do estudo Mosaico são homens que fazem sexo com homens ou pessoas transexuais que fazem sexo com homens. De acordo com a médica Arlene Pinto, somente nesse grupo é observado um aumento de 17% a mais de ocorrência do HIV. O número vai ao encontro das estatísticas da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), que apontam que o sexo masculino é o mais acometido pelo vírus, principalmente, na faixa etária de 20 a 29 anos de idade.

Etapas

Após o recrutamento dos participantes, eles receberam as vacinas, durante cinco encontros promovidos pela pesquisa. “No primeiro encontro, eles recebem apenas uma vacina, em um dos braços. No segundo, também. No terceiro e quarto, recebem uma vacina em cada braço, que é a vacina que contém duas proteínas que vão oferecer proteção contra o HIV”, explicou a médica e pesquisadora.

Além da aplicação do imunizante, os médicos realizam avaliação de infecções sexualmente transmissíveis (IST), como sífilis e clamídia, nos pacientes. Eles passam por aconselhamento de enfermagem antes das consultas médicas e, nas consultas com os especialistas, além dos exames obrigatórios para o estudo, todos os adventos ocorridos são acompanhados detalhadamente.

“Acompanhamos tudo. Se, de repente, por exemplo, a pessoa apresenta uma inflamação no fígado, precisamos avaliar se tem uma doença autoimune. Se tiver uma crise de ansiedade, precisa de algum suporte psicológico, o instituto também dispõe”, salientou a médica. A distribuição de preservativos, disse ela, também é realizada.

Esses encontros são realizados a cada três meses e assim como qualquer vacina, é esperado que os voluntários tenham reações como inchaço, dor muscular e febre após cada dose: “É o que chamamos de reatogenicidade, ou seja, é como o corpo respondeu àquela substância, o que é muito comum”, afirmou.

Esperança

Segundo a pesquisadora, os participantes enxergam os estudos com muita esperança. “Para nossa alegria, eles se dizem honrados em participar. Para eles, é uma satisfação muito grande poder contribuir com um estudo mundial e que, para mim, pode revolucionar a história da humanidade“.

A comunidade científica também fica na torcida: “Eu não tenho palavras para agradecer a oportunidade e nem para mensurar a gratidão que é fazer parte do estudo, porque a gente sabe que o HIV é um vírus aparentemente novo. Foi descoberto em 1980, mas ainda hoje destrói milhares de vidas em todo o mundo. É uma epidemia mundial e mesmo com os cuidados de prevenção, hoje em dia, ainda faz muitas vítimas”, destacou.

Números

No período de janeiro a julho de 2020, foram notificados 605 novos casos de HIV em adultos em todo o Amazonas, segundo dados da SES-AM. Em 2019, foram 1.576 novos casos notificados.

Só na FMT-HDTV mais de 14 mil pacientes com HIV estão cadastrados. No entanto, somente 7.467 pacientes retiraram medicamentos nos últimos 90 dias. São esses que são considerados em tratamento, porque, após esse prazo, é classificado em “abandono de tratamento”.

Além da FMT, a pessoa com HIV pode buscar atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do bairro.

Vanessa Bayma
Vanessa Bayma
Jornalista manauara com experiência de mais de 10 anos em jornal impresso. Passou pelas redações de A Crítica e Manaus Hoje como repórter e editora. Fez parte da assessoria de comunicação da Alfândega da Receita Federal. Gosta de ouvir pessoas.

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