DIA DO FOLCLORE: Boi-Bumbá é o maior veículo de comunicação da cultura popular, diz Fred Góes

Para Fred, Boi cumpre papel de divulgar o conhecimento e a história amazônica e atuar como vetor para as demais regiões. FOTO: Reprodução.

Jacira Oliveira
Especial para o CANAL TRÊS

MANAUS – |O Festival Folclórico de Parintins é o maior veículo de comunicação para divulgar a cultura popular e transmitir os conhecimentos indígenas, das populações amazônicas e também aqueles que estão espalhados em escritos de historiadores e folcloristas como Mário de Andrade, Luiz da Câmara Cascudo, Sílvio Romero e tantos outros. A opinião é do jornalista, músico e artista do Boi-Bumbá de Parintins há mais de 40 anos, Fred Góes, 64, em entrevista ao CANAL TRÊS, nesse dia 22 de agosto, quando se comemora no mundo inteiro e também no Brasil o Dia do Folclore.

Para Fred Góes, quando o boi traz para a arena um ritual indígena ou uma lenda amazônica, por exemplo, também está contando a história daqueles povos, perpetuando suas vivências. “Um ritual indígena não é apenas a expressão de um momento, mas conta a história daquela tribo. E isso, que normalmente só era transmitido de forma oral, o espetáculo do Boi-Bumbá tem a possibilidade de contar de outras formas”, afirma.

Ele cita como exemplo o ritual da tucandeira, das tribos Sateré-Maué. “Todos sabemos que o ritual da tucandeira é um rito de passagem. Mas ali também se conta, por exemplo, a história do último confronto dos saterés com o invasor, no Campo Grande, em Parintins”, diz Fred. “É a nossa forma de contar a história indígena, de mostrar que a história indígena existe, através dos mitos e lendas retratadas no boi”, destaca.

“Acredito que essa questão das lendas e mitos é muito clara. E que, da mesma forma que a história pode se transformar em lendas e mitos, estes também podem se transformar em realidade”, destaca.

Os rituais i foram inseridos no Boi-Bumba como ingrediente para engrandecer o festival, mas também resgatar a história. FOTO: Reprodução.

Boi-Bumbá – O próprio Boi-bumbá, como folguedo é, talvez, a mais importante manifestação cultural do Brasil, com o auto do boi, como dança dramática, presente em todo o seu território, como constatou o escritor Mário de Andrade. “Tentando chegar a uma identidade nacional, ele chegou à conclusão de que o boi é o bicho nacional. O Mário de Andrade tinha a preocupação de que essas danças viessem a desaparecer”, explica.

Fred lembra que o Boi de Parintins estava declinando há muitos anos e com o início do festival, em 1965, começou o resgate da brincadeira, buscando uma projeção, sem se ater somente ao auto, mas visando transformá-lo em um grande espetáculo capaz de atrair muita gente. “O Boi foi, gradativamente, criando grandes quadros de apresentação, como as Lendas e os Rituais Indígenas. Foi o início da formatação do boi que temos hoje. O auto já é um espetáculo e foi aperfeiçoado, resguardando a essência para o boi. E isso nos deu a oportunidade de oferecer uma panorâmica sobre a cultura popular. Não tem mais sentido cantar só a morte, a ressurreição do boi, mas também temos que mostrar que a história indígena existe, através dos mitos e lendas retratados no boi e também atuar como um vetor e expandir isso para todo o país”, defende. “Acredito que a grande força do folclore é trazer, na base da cultura, o conhecimento da raça humana”, diz.

O boi mantém o papel central representada na dança dramática.

Fred lembra que o boi, em si, é um elemento adorado pelo que representa para a humanidade e que traz essa representatividade tanto pela força animal, como por estar sempre a serviço da humanidade. E por isso se transformou em um personagem para ser trabalhado na história, como parte do folclore brasileiro, já retratado e estudado por Mário de Andrade, Sílvio Romero e Luiz da Câmara Cascudo.

“O boi se transformou nesse grande veículo de comunicar o que a produção cultural traz para a gente”, diz Fred que vai além: “Nós temos muitas informações sobre a história e a cultura da Amazônia dispersas, como no livro de Marcio Souza – Uma Breve História da Amazônia – e outros escritores, como os já citados anteriormente. E esses vários conhecimentos têm um grande veículo de comunicação, chamado Boi-Bumbá”, finaliza.

Mais sobre o Dia do Folclore – A data foi oficializada pelo presidente Humberto Castelo Branco, em 17 de agosto de 1965, por meio do Decreto nº 56.747.

A palavra folclore foi utilizada pela primeira vez em 22 de agosto de 1845, pelo pesquisador britânico William John Toms, ao escrever um artigo sobre lendas, costumes e superstições. A palavra folclore derivou da expressão inglesa folklore utilizada por Toms, que significa sabedoria popular.

O folclore é definido como um conjunto de costumes, crenças, contos, mitos, músicas, danças, festas populares e outros aspectos, em diversas culturas e regiões do país. No Brasil, os principais estudiosos da área foram Renato Almeida (1.895-1.981), Mário de Andrade (1.893-1.945) e Luís da Câmara Cascudo (1.898-1.986).

Jacira Oliveira
Jacira Oliveira
Jacira Oliveira é jornalista, tendo atuado em redação dos principais grupos de comunicação do Amazonas além de assessorias de comunicação de instituições federais, estaduais e municipais. É graduada em Ciência Política e está concluindo a pós-graduação também em Ciência Política.

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